Raúl Martínez/EFE
Raúl Martínez/EFE

Como foi feita a coalizão de direita que deve tirar a esquerda do poder no Uruguai

Depois do primeiro turno, Luis Lacalle Pou selou aliança com 4 grupos, incluindo o Partido Colorado e o Cabildo Abierto, que tiveram 12% e 11% dos votos, respectivamente; ao mesmo tempo, a Frente Ampla não se uniu a nenhuma outra formação

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 15h00

MONTEVIDÉU - Em 27 de outubro os eleitores do Uruguai foram às urnas para escolher seu novo presidente. Daniel Martínez, da governista Frente Ampla, obteve 39% dos votos e o desafiante Luis Lacalle Pou, ficou com quase 29%, forçando a realização de um segundo turno.

Para Entender

Cenário: Mais uma mudança de poder à vista na América Latina

Com os governantes passando por dificuldades em toda a América Latina, a guinada à direita no Uruguai ficou clara nas eleições gerais de 27 de outubro

Nos dias após a votação, no entanto, Lacalle Pou executou um plano de longo prazo e selou uma aliança com o Partido Colorado - o terceiro mais votado, com 12% -, com o Cabildo Abierto - que obteve 11% -, além do Partido Popular e do Partido Independente, ambos com 1%.

Os cinco partidos da coalizão, com ideologias que vão da direita até a centro-esquerda, coordenaram entre outubro e a realização do segundo turno em 24 de novembro, ações entre seus militantes que, por exemplo, distribuíram santinhos juntos.

A Frente Ampla, por outro lado, não obteve o apoio de nenhum dos outros dez partidos inscritos no país. 

O resultado desses dois caminhos antagônicos seguidos por Martínez e Lacalle Pou somado à perda de confiança dos eleitores na coalizão governista em meio ao aumento do crime e à desaceleração do crescimento econômico foi detectado pelas pesquisas eleitorais.

Na última delas, divulgada três dias antes do segundo turno, a empresa Cifra previa que Lacalle Pou teria 51,5% dos votos, enquanto Martínez ficaria com 44,5%. A margem de erro era de 3,1 pontos percentuais.

Assim, já se esperava uma virada nas urnas, apesar de os governos da Frente Ampla terem evitado em grande parte os escândalos de corrupção e as quedas econômicas bruscas que afetaram outros governos de esquerda região.

Também sob os governos da Frente Ampla, o Uruguai cresceu de forma constante, a desigualdade encolheu e a nação de 3,4 milhões de pessoas ganhou as manchetes internacionais ao defender iniciativas sociais liberais amplamente populares no país.

Foi o caso quando o Congresso legalizou o aborto em 2012 e, no ano seguinte, aprovou uma lei que para permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E de novo em 2017, quando o Uruguai tornou-se o primeiro país a legalizar totalmente a venda de maconha para uso recreativo, criando um modelo de tributação e regulamentação da venda de drogas que atraiu grande interesse.

Mas a Frente Ampla teve dificuldades para convencer os eleitores de que a continuidade era o caminho certo, disse Gerardo Caetano, professor de história e ciência política da Universidade da República, em Montevidéu.

"O Uruguai faz parte desse padrão de sociedades irritadas e infelizes que viram aumento no poder de compra e, devido a esse aumento, começaram a exigir mais", disse ele. "As pessoas estão com raiva e se voltaram contra o governo."

Outro ponto destacado por especialistas e eleitores que pode ter ampliado os obstáculos de Martínez são as divisões internas na Frente Ampla e a dificuldade que ele teve para empolgar os eleitores.

"Martínez não tem perfil para ser presidente", disse Mercedes Peirano, de 61 anos, que afirmou ter votado nele, embora sem entusiasmo. "Ele é uma boa pessoa, mas carece de carisma e tropeça quando fala."

Diferenças entre Martínez e Lacalle Pou

A Frente Ampla chegou ao poder em 2005 e desde então nunca havia sido derrotada nas urnas. 

"Na última campanha, a Frente Ampla tinha o slogan 'Uruguai não para', mas o Uruguai parou: a economia parou, as reformas pararam. A oposição, entretanto, fez as coisas bem e construiu uma alternativa crível e empolgou pessoas, que passaram a acreditar que podem fazer um bom governo", disse o cientista político Adolfo Garcé.

Como forma de esconder os muitos problemas que o atual governo do presidente Tabaré Vázquez enfrenta, Martínez - um engenheiro de 62 anos, ex-prefeito de Montevidéu e ex-ministro das Indústrias - concentrou sua campanha nas realizações que seu partido teve desde que chegou ao poder.

Membro do Partido Socialista, Martínez representa a corrente mais moderadas e de centro-esquerda da Frente Ampla, uma coalizão que reúne social-democratas e comunistas, passando por democratas-cristãos e ex-guerrilheiros.

Para Entender

Perfil: Lacalle Pou, herdeiro de um clã de políticos tradicionais

O candidato do Partido Nacional busca a presidência do Uruguai pela segunda vez

Lacalle Pou, um advogado de 46 anos, ex-senador do Partido Nacional, concentrou suas críticas nos últimos cinco anos em que Vázquez governou. Um dos focos de sua campanha foi a crise de segurança pública, representada pelos 414 homicídios registrados em 2018.

Descendente de uma família de políticos, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995) e de uma mãe que foi senadora, Lacalle Pou foi candidato presidencial nas eleições nacionais de 2014, quando foi derrotado em segundo turno por Tabaré. / AP e NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.