Jim Watson, Saul Loeb/AFP
Jim Watson, Saul Loeb/AFP

Como funcionam as eleições nos EUA? Das prévias à apuração

Entenda todas as etapas do processo eleitoral americano para a escolha do novo presidente, das prévias à escolha dos vices, apuração dos votos até a divulgação do resultado

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2020 | 05h00
Atualizado 03 de novembro de 2020 | 11h40

Desde 1845, as eleições presidenciais nos Estados Unidos acontecem sempre na primeira terça-feira de novembro. A data foi estabelecida quando o país ainda era uma sociedade agrária e religiosa. Muitos eleitores levavam mais de um dia para chegar às seções eleitorais. No domingo, a missa era sagrada. Quarta-feira, era dia de vender a produção nos mercados.

O presidente americano tem mandato de quatro anos, podendo se reeleger uma única vez. A Constituição nunca proibiu um terceiro mandato. Quem estabeleceu a tradição de desprendimento pelo poder foi George Washington, o primeiro inquilino da Casa Branca. Considerado o patriarca dos EUA, ele rejeitou a pressão para ser um caudilho americano e se recolheu após oito anos.

No entanto, em nome da estabilidade, entre a Grande Depressão e a 2.ª Guerra, Franklin Roosevelt se reelegeu três vezes – até sofrer um derrame e morrer no início do quarto mandato. Só então os congressistas americanos discutiram e aprovaram o 22.º Artigo da Constituição, que submete o presidente a uma única reeleição.

O bipartidarismo nos EUA

Em tese, qualquer pessoa pode se lançar na campanha. Na teoria, os EUA são uma democracia multipartidária. O Partido Verde e o Partido Libertário estão entre os nanicos mais conhecidos, mas existe até um Partido Comunista dos EUA, com sede em Nova York e presente em outros Estados.

Na prática, porém, a democracia americana é bipartidária. Isso ocorre porque o primeiro grande ativo de um candidato não são as ideias, mas o dinheiro. Para que um candidato conste nas cédulas de todos os 50 Estados, é preciso montar uma gigantesca – e custosa – estrutura partidária. Desde a Guerra Civil, a luta nas urnas é entre dois partidos: Republicano e Democrata, que impuseram vários obstáculos para a expansão de uma terceira força eleitoral, como manter os debates exclusivos entre as duas legendas, por exemplo.

Ao longo do tempo, houve tentativas de furar esse oligopólio, mas os nomes que surgem como candidatos independentes são sempre de bilionários que podem bancar a própria candidatura, como o magnata texano Ross Perot, em 1992, e o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg.

Como funcionam as prévias americanas

O processo eleitoral americano começa mais de um ano antes do dia da votação, com vários nomes explorando a possibilidade de candidatura por um dos dois partidos. Para definir o candidato, republicanos e democratas devolvem a escolha ao povo. Durante seis meses, cada Estado organiza eleições primárias, nas quais os eleitores elegem delegados que representam os pré-candidatos na convenção partidária.

As convenções de republicanos e democratas

As regras variam de acordo com o partido e com o Estado. Até bem pouco tempo, cada pré-candidato chegava à convenção com um número de delegados. O indicado era definido após mais de uma votação, até que alguém obtivesse maioria. Hoje, no entanto, esse estilo de convenção "dividida" parece ter caído em desuso. Em nome da unidade, republicanos e democratas resolvem a disputa por aclamação.

Transmitidas pela TV, as convenções se tornaram um espetáculo midiático de quatro dias, com artistas, números musicais e discursos de líderes políticos. O evento é usado para mostrar força e dar um impulso ao nome do nome do escolhido. Normalmente, após as convenções, o candidato registra um salto nas pesquisas. O democrata Al Gore, por exemplo, estava cerca de 16 pontos percentuais atrás do republicano George W. Bush, em 2000, mas empatou a disputa logo após a convenção do partido.

Em 2020, porém, a marca das convenções foi a incerteza. Em razão da pandemia de coronavírus, a do partido democrata foi realizada, pela primeira vez, de maneira remota entre os dias 17 e 20 de agosto. O ex-presidente Barack Obama fez uma participação especial em uma das noites do evento e denunciou Trump como uma ameaça à democracia

A dos republicanos aconteceu de 24 a 27 de agosto; a primeira noite, que oficializou a candidatura de Trump, foi realizada presencialmente em Charlotte, na Carolina do Norte.

A escolha do vice

A escolha do vice-presidente é um dos momentos cruciais da campanha. Normalmente, o nome do companheiro de chapa é um complemento do perfil do candidato, mas pode ser simplesmente o nome derrotado nas primárias, para facilitar a união das facções do partido. Em 2008, Barack Obama viveu esse dilema. Ao se tornar candidato democrata, especulou-se que ele poderia optar por Hillary Clinton, vencida nas prévias. Mas, como era jovem e considerado um novato na política, a campanha preferiu Joe Biden, um senador com larga experiência, principalmente em política externa.

Este ano não há surpresas do lado republicano, já que o presidente de turno costuma repetir a chapa vencedora quatro anos antes. Apesar das especulações de que Trump pudesse mudar o companheiro, Mike Pence estará a seu lado de novo. Do lado democrata, a senadora Kamala Harris foi escolhida como a vice de Biden, a primeira mulher negra a concorrer ao cargo.

Debates presidenciais dos EUA são decisivos

Fase onde as eleições são vencidas e perdidas. Os debates são levados tão a sério que foi criada a Comissão de Debates Presidenciais, em 1987, para organizar os encontros. O mais famoso foi o primeiro transmitido pela TV, em 1960, quando o democrata John Kennedy apareceu cheio de disposição vestido em um terno escuro para massacrar o republicano Richard Nixon, que cometeu o erro de fazer campanha até a última hora e parecia cansado dentro de terno cinza que sumia na imagem em preto e branco.

O primeiro debate da corrida eleitoral de 2020 ocorreu no dia 29 de setembro e foi marcado por ofensas mútuas e interrupções constantes. O segundo estava previsto para ocorrer em 15 de outubro, mas Trump foi diagnosticado com covid-19 e se recusou a participar de maneira virtual e foi cancelado. O segundo e último encontro aconteceu em 22 de outubro, com tom mais ameno.

O voto e a eleição indireta nos EUA

A eleição americana é indireta, decidida por um colégio eleitoral de 538 votos alocados segundo a população de cada Estado. Por isso, é possível um candidato vencer mesmo que tenha menos votos que o adversário. Isso ocorreu em 2000, quando o republicano George W. Bush foi eleito apesar de ter ficado 0,5 ponto porcentual abaixo do democrata Al Gore. E em 2016, quando Hillary Clinton foi derrotada por Trump mesmo saindo das urnas com 2 pontos porcentuais a mais.

O sistema de colégio eleitoral

Esta anomalia foi criada no século 18 como forma de garantir a união das ex-colônias britânicas. Por exclusão, foi o compromisso encontrado pelos fundadores dos EUA para escolher o chefe do Executivo, numa época em que em nenhum país do mundo havia eleição direta. O sistema evidencia o pavor da escolha popular, especialmente se os 40 milhões de escravos algum dia tivessem poder de voto. O mecanismo também foi criado como uma espécie de fusível, capaz de evitar um curto circuito caso o povo escolhesse um líder populista.

A ideia também é que o colégio eleitoral mantenha o poder de Estados que não teriam voz se a escolha fosse pelo voto popular – a eleição seria decidida nos grandes centros urbanos. Na prática, o mecanismo acabou com a disputa na maioria dos Estados. Redutos progressistas, como Califórnia e Nova York, viraram curral eleitoral dos democratas. Trincheiras do conservadorismo, como Oklahoma e Carolina do Sul, são dominadas pelos republicanos.

Assim, o mecanismo concentrou a campanha em uma dúzia de Estados-chave, que oscilam entre um e outro partido, os únicos onde há realmente competição. Este ano, a lista de Estados-chave cresce à medida que a popularidade de Trump cai. Em Flórida, Pensilvânia, Wisconsin, Michigan, Ohio e Carolina do Norte a disputa ainda é voto a voto. Mas agora, com as pesquisas apontando uma eleição apertada em Estados conservadores, Arizona, Geórgia e Texas parecem ter entrado na campanha.

O colégio eleitoral também tem a vantagem da descentralização. Em caso de recontagem dos votos, o trabalho não é feito sobre a base nacional e pode ser cirurgicamente restrito a um Estado. Mas há problemas, que vão além de distorção óbvia da vontade popular – das últimas sete eleições, os republicanos tiveram mais votos em apenas uma, quando George W. Bush venceu John Kerry, em 2004.

O primeiro deles é a composição dos 538 eleitores. O número é calculado com base na população de cada Estado e reflete a soma dos 100 senadores com os 435 deputados, mais os 3 representantes de Washington DC. A primeira dor de cabeça é que cada um dos 538 eleitores é um sujeito de carne e osso que deposita o voto escrito em papel, para presidente e vice-presidente, um mês após a eleição, em local determinado em cada Estado.

O método não é à prova de falhas e depende do humor do cidadão na hora de votar. Muitas vezes o sujeito, como forma de protestos, escreve um nome qualquer na cédula. O fenômeno era raro. Desde 1948, havia acontecido oito vezes. Na eleição passada, em 2016, porém, dez indivíduos não votaram em Trump ou Hillary – sete votos foram validados, incluindo três que votaram no ex-secretário de Estado Colin Powell. Em uma disputa acirrada, esse tipo de gracinha pode fazer o resultado parar nos tribunais.

Outro risco do colégio eleitoral é o de empate – já que o número de eleitores é par. A probabilidade é estimada em menos de 1%, mas considerada um desastre de proporções épicas. Caso ocorra, o resultado só será definido na posse do próximo Congresso, dois meses depois da eleição. A Câmara dos Deputados escolhe o presidente e o Senado, o vice. Neste cenário, a indefinição poderia afetar os mercados e desestabilizar a maior economia do mundo, já que abre espaço para a eleição de presidente e vice de partidos opostos – caso republicanos e democratas cada um dominem, cada um, uma das Casas do Congresso.

Cada condado nos EUA tem suas regras eleitorais

Além de indireta, a eleição americana é descentralizada. Como não existe um órgão federal que padronize as regras, cada condado cria sua norma. Assim, são mais de 3 mil eleições ocorrendo ao mesmo tempo nos 50 Estados. Para os eleitores, é uma bagunça. Em alguns lugares, o voto é em papel. Em outros, eletrônico. No Colorado e no Oregon, o voto pode ser enviado pelos correios. Em 33 Estados há leis que obrigam o eleitor a apresentar algum tipo de documento com foto. No Arizona, muitas vezes basta um comprovante de residência com a carteira de motorista.

As vantagens de um processo ultracentralizado é a facilidade de recontar os votos, caso seja necessário, e dificultar a ação de hackers. Especialistas dizem que, embora Estados e condados estejam mais vulneráveis a um ataque cibernético, o fato de as eleições serem tão descentralizadas complica o objetivo.

Alguns Estados permitem, inclusive, que o voto seja enviado pelo correio. Estima-se que os eleitores que votarão por correio em 2020 seja o maior da história. Em nove Estados, este será o método exclusivo de votação. O presidente Donald Trump, crítico ao sistema, chegou a afirmar que o resultado poderia demorar "meses" para ser inteiramente divulgado. E é realmente possível que o sistema atrase os resultados; entenda aqui o porquê.

Como funciona a apuração das eleições americanas

Como cada condado escolhe seu método de votação, cada localidade tem também uma maneira de apurar. Algumas seções usam leitores ópticos, outras preferem velhas máquinas que leem as perfurações no papel – que foram questionadas na eleição na Flórida, em 2000. A contagem dos votos começa na Costa Leste, nos Estados que encerram primeiro a votação, e seguem até o Havaí, que está seis horas atrás do horário de Brasília.

Diante deste cenários, os candidatos democratas, geralmente, saem na frente, após a apuração de votos rápida nos Estados do Meio-Oeste e da Nova Inglaterra. Os republicanos recuperam o fôlego no início da madrugada, quando Texas e os Estados do Sul divulgam seus resultados. Até chegar à Costa Oeste, onde os democratas levam vantagem na Califórnia, Oregon e Washington. No entanto, como a eleição na maioria dos Estados é previsível, é possível determinar um vencedor sem precisar esperar a totalização dos votos no Havaí, por exemplo.

Importante lembrar, contudo, que quem vence a eleição estadual leva todos os seus eleitores no colégio eleitoral, mesmo que a diferença seja mínima. Em 2016, Trump venceu Hillary por 13 mil votos em Michigan (0,3% ponto porcentual), mas ganhou todos os 16 votos do Estado. O sistema é conhecido como “winner-takes-all” (o vencedor leva tudo). Apenas dois dos 50 Estados americanos – Maine e Nebraska – usam um mecanismo diferente e escolhem os eleitores de maneira distrital.

As pesquisas eleitorais nos EUA

Nos EUA, o voto não é obrigatório. Por isso, o grande esforço dos candidatos é manter sua base eleitoral entusiasmada o suficiente para sair de casa e votar em novembro – que é frio, em muitos lugares. Isso faz com que as pesquisas tenham mais dificuldades para ajustar um modelo certeiro. Os estatísticos usam várias métricas para captar a empolgação dos eleitores e regular as sondagens: número de novos registros de cada partido, quantidade de dinheiro arrecadada por cada candidato, comparecimento às urnas durante as primárias, movimentação em redes sociais e público presente nos comícios.

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Diferentemente do Brasil, onde se conta pesquisas nos dedos de uma mão, dezenas de institutos americanos divulgam três ou quatro sondagens por dia. Alguns modelos tendem ligeiramente para os democratas. Outros, favorecem os republicanos. Por isso, pesquisas nacionais podem apresentar resultados muito discrepantes. No início de julho, Biden liderava com 12 pontos porcentuais à frente de Trump (53% a 41%), de acordo com a prestigiada Universidade Monmouth, mas estava apenas 5 pontos porcentuais segundo o Yougov (45% a 40%). Por isso, proliferam nos EUA sites que fazem a média dos resultados, para evitar dar muito peso a sondagens fora da curva.

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