REUTERS/Oswaldo Rivas
REUTERS/Oswaldo Rivas

Para entender: Crise na Nicarágua

Cem dias de protestos, centenas de mortos ou desaparecidos e milhares de feridos; em pouco mais de três meses, país já viveu sua maior crise sociopolítica desde a Revolução Sandinista

O Estado de S.Paulo

27 Julho 2018 | 09h38

MANÁGUA - Ao menos 448 pessoas morreram, 2,8 mil ficaram feridas e 595 estão desaparecidas em decorrência da crise vivida na Nicarágua nos últimos 100 dias, segundo números da Associação Nicaraguense Pró Direitos Humanos (ANPDH). A organização diz que a lista de vítimas é preliminar pois há casos ainda não confirmados em áreas de difícil acesso.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) responsabilizou o governo por "assassinatos, execuções extrajudiciais, maus tratos, possíveis atos de tortura e detenções arbitrárias cometidas contra a população predominantemente jovem". O governo do presidente Daniel Ortega nega ser o principal responsável pela violência e pelas mortes. Além disso, classificou os manifestantes de "grupos terroristas atuando em um plano de golpe de Estado".

Os protestos começaram no dia 18 de abril e inicialmente pediam a revogação da reforma na previdência, instaurada no dia 16. Agora, cem dias depois, a população pede a saída de Ortega e da primeira-dama e vice-presidente, Rosario Murillo, do poder. Confira abaixo como os eventos evoluíram e levaram à mais sangrenta crise sociopolítica do país desde os anos 1980.

- 18 de abril

Os protestos na Nicarágua começaram no dia 18 de abril, quando a população foi às ruas contra a reforma da previdência social no país. Logo nas primeiras manifestações, as forças do governo reprimiram os manifestantes com violência e o número de mortos chegou a 24 após cinco dias desde o início dos atos.

A reforma aumentava de 6,25% para 7% a contribuição dos trabalhadores ao Instituto Nicaraguense de Seguro Social (INSS). Para os patrões, a cota subiria de 19% para 21%, com previsão de chegar a 22,5% até 2020. As mudanças foram criticadas por todos os setores - empresários, especialistas e trabalhadores.

A maior reclamação era de que as medidas não evitariam a falência do INSS e aumentariam o desemprego e a informalidade, diminuindo o consumo e a competitividade dos produtos nacionais. Diante da repressão violenta, a Anistia Internacional pediu ao governo que protegesse o direito da população de se manifestar.

Já nessas primeiras ocasiões, a imprensa foi censurada. O canal 100% Noticias, que transmitia os protestos ao vivo, foi retirado do ar. Em um protesto no dia 21 de abril, o jornalista Ángel Gahona foi baleado e morreu enquanto trabalhava, segundo o jornal El Meridiano. Gahona estava transmitindo os acontecimentos ao vivo e o momento de sua morte foi registrado em vídeo.

O governo do presidente Daniel Ortega culpou "pequenos grupos de oposição" de serem os responsáveis pela revolta. No dia 22 de abril, ele revogou a reforma previdenciária que havia entrado em vigor no dia 16, argumentando que isso permitiria a abertura do diálogo com os manifestantes e oposicionistas. Na mesma data, o presidente comparou os manifestantes a membros de gangues da América Central, afirmando que o governo teria que combater as gangues para que não continuassem "se matando" ou assaltando estabelecimentos. "Temos de restabelecer a ordem. Não podemos permitir que aqui se imponha o caos, o crime, o saque".

- 23 de abril

Em 23 de abril, o número de mortos subiu para 31, quando policiais invadiram a Universidade Politécnica da Nicarágua e mataram quatro estudantes. Nesta data, oposicionistas começaram a afirmar que a questão previdenciária já não era mais o tema dos protestos. "É pela liberdade de expressão, contra a corrupção e muitos outros problemas", disse a presidente da Frente Ampla pela Democracia, Violeta Granera. E enquanto o governo seguia culpando "pequenos grupos de oposição" pela violência, os estudantes e demais manifestantes acusavam Ortega pela repressão dura. Neste ponto, as aulas foram suspensas no país.

- 15 de abril

O número de mortos estava em 34 no dia 25 de abril, quando centenas de nicaraguenses marcharam com velas acesas pelas ruas da capital, Manágua, pedindo justiça pelas vítimas. O governo começou a avaliar um possível diálogo nacional em busca de saídas. Neste momento, bispos católicos se ofereceram para mediar o processo.

Além das 34 mortes, 66 pessoas feridas estavam internadas e, destas, 12 apresentavam estado crítico de saúde. Dos mortos, a maioria recebeu tiros na cabeça, pescoço e tórax. Também no dia 25, o governo anunciou a reabertura das escolas, um dia depois de liberar dezenas de jovens detidos durante os protestos. Os jovens disseram que durante seu tempo na prisão haviam sido espancados por supostos policiais e funcionários do sistema penitenciário, antes de serem liberados quase nus. Ainda no dia 25, a censura ao 100% Noticias foi revogada.

- 6 de maio

Em 6 de maio, o número de mortos estava em 45 e o Parlamento - dominado por partidários de Ortega - criou uma comissão para investigar as mortes. Grupos em defesa dos direitos humanos, empresários, Igreja e associações estudantis criticaram a medida, afirmando que a comissão seria incapaz de realizar uma investigação independente.

- 11 de maio

Após 24 dias desde o início dos protestos, 50 pessoas haviam morrido, segundo as ONGs. Em 11 de maio, 21 estudantes foram intoxicados enquanto participavam de uma manifestação. Eles alegaram que haviam recebido alimentos e bebidas de pessoas desconhecidas durante o ato. Desde quando os protestos começaram, os grupos estudantis foram atacados pelas forças ligadas ao governo. A possibilidade de diálogo com a mediação de bispos católicos ainda era vista como uma solução, mas as conversas não haviam começado.

- 17 de maio

Em 17 de maio, cerca de 60 mortes haviam sido registradas e o número de feridos estava em 500. Neste momento, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) enviou um grupo para investigar a crise no país. Os diálogos mediados pela Igreja Católica haviam começado. Além disso, os dados sobre o número de mortes começaram a variar entre os grupos que acompanhavam a crise. Para o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos, entre 54 e 58 pessoas haviam morrido. Outras organizações humanitárias já falavam em 65 mortes.

- 3 de junho

No início de junho, 114 pessoas haviam morrido, incluindo um estrangeiro. A cidade de Masaya, que fora reduto dos rebeldes na década de 80, havia se transformado em um campo de batalha. Os manifestantes levantaram barricadas e enfrentaram os policiais com armas caseiras. Moradores da região começaram a denunciar a presença de franco-atiradores, enquanto a polícia local acusava delinquentes pelos "atos terroristas". A Igreja Católica desistiu de mediar a resolução do conflito em razão da repressão violenta.

- 16 de junho

Em 16 de junho, cerca de 200 mortes eram contabilizadas. Governo e oposição fizeram um acordo para que organizações internacionais verificassem as fatalidades. Bispos nicaraguenses propuseram a Ortega a antecipação das eleições gerais para 2019.

- 7 de julho

Em 7 de julho, Ortega declarou que não anteciparia as eleições, o que elevou as tensões pelo país e motivou mais protestos. Barricadas foram levantas pela população em Diriamba e Jinotepe, no oeste do país, e a polícia continuava a atribuir os mortos e feridos à ação de "terroristas armados".

- 11 de julho

Quatro dias depois, em 11 de julho, a CIDH calculava em 264 o número de mortes e em 1,8 mil o número de feridos. A Igreja havia retomado a mediação dos diálogos, mesmo após a ocupação da Basílica de San Sebastián por manifestantes que buscavam abrigo diante das agressões por forças governistas.

- 16 de julho

Em 16 de julho, as mortes se aproximavam de 300 e a situação piorou quando grupos armados pró-governo e policiais começaram a cercar universidades ocupadas por manifestantes. Pais de estudantes mortos caminharam pelas ruas, carregando caixões e pedindo justiça. A comunidade internacional condenou, mais uma vez, a repressão violenta de Ortega. Os pedidos por eleições antecipadas continuavam.

- 17 de julho

Em 17 de julho, o Parlamento aprovou uma lei sobre terrorismo que, segundo a ONU, poderia ser utilizada para criminalizar protestos pacíficos. No mesmo dia, uma operação foi realizada por policiais e milícias pró-governo contra o bairro indígena de Monimbó, região símbolo dos protestos e reduto oposicionista. Pelo Twitter, o arcebispo de Manágua, Silvio Báez, denunciou a ação. "Estão atacando Monimbó! As balas estão atingindo a igreja María Magdalena, onde o padre está refugiado!"

Na ocasião, moradores ergueram barricadas de até dois metros de altura para se proteger. Trinta e sete caminhonetes cheias de agentes da polícia antimotim e paramilitares entraram na cidade de Masaya pelos quatro cantos. A cidade havia se declarado rebelde em abril, quando os protestos começaram. Após a ação, autoridades do governo afirmaram que o "golpe" havia fracassado. A comunidade internacional, mais uma vez, reiterou os pedidos para que a violência chegasse ao fim.

- 20 de julho

Em 20 de julho, no aniversário da Revolução Sandinista, Ortega pediu aos manifestantes para acabar com que considera uma tentativa de "desestabilizar o país". No dia seguinte, a população voltou a pedir eleições antecipadas. Grupos de oposição defenderam a Igreja Católica e os bispos, dizendo que não aceitariam que fossem criminalizados ou rotulados de golpistas por Ortega.

- 21 de julho

Ainda em 21 de julho, dezenas de mães que procuravam seus filhos presos ou desaparecidos foram expulsas por agentes do governo e ameaçadas com armas de fogo. A vice-presidente e primeira-dama, Rosario Murillo, disse que os opositores haviam cometido suicídio para responsabilizar Ortega. "Eles mesmos tiraram suas vidas para culpar o governo", afirmou.

- 23 de julho

Em 23 de julho, a estudante universitária brasileira Raynéia Gabrielle Lima foi morta a tiros quando voltava para casa depois de um plantão hospitalar na capital do país. A polícia local afirmou que um segurança particular realizou os disparos, enquanto testemunhas alegaram que forças paramilitares foram as responsáveis pelo assassinato.

A comunidade internacional voltou a pressionar Ortega e pedir eleições antecipadas. O Brasil condenou a morte da estudante, pediu que o caso seja investigado e os responsáveis, punidos. No entanto, autoridades nicaraguenses não deram detalhes sobre a morte de Raynéia, como o calibre da arma utilizada ou a quantidade de tiros que a atingiram. / EFE, AP, REUTERS e AFP

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